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terça-feira, 30 de junho de 2026

Quem sai aos seus não degenera

 



Até você tornar o inconsciente consciente, ele irá dirigir a sua vida e você o chamara de destino” 

Jung


Quando somos jovens, passamos boa parte da vida tentando construir nossa própria identidade. Queremos ser diferentes dos nossos pais. Curiosamente, é justamente com o passar dos anos que começamos a reconhecer neles partes importantes de quem somos. Não como uma prisão, mas como uma herança.

Foi exatamente isso que comecei a perceber nas minhas mais de cinco décadas de vida (quase seis). São nos pequenos detalhes que enxergo de onde vim. Hoje reconheço com muita clareza características dos meus pais e, de alguma forma, dos meus ancestrais.

Pequenos gestos, sorrisos, o franzir dos olhos, o jeito de andar, de falar e tantos outros detalhes despertam em mim um profundo sentimento de pertencimento. Como não me maravilhar quando me vejo cozinhando com alguns trejeitos da minha mãe? Nessa hora, sou imediatamente transportada para a infância, vendo-a preparar nossas refeições. Ou quando fico irritada e percebo exatamente o mesmo movimento dos lábios e um ranger de dentes tão característico do meu pai.

É impossível não reconhecer essa herança. Ela aparece nos gestos mais simples, mas também nas emoções, nos medos, nos receios e na forma como reagimos à vida.

Essas questões me levaram a estudar um pouco de epigenética. Hoje sabemos que ela oferece um possível mecanismo biológico para explicar parte da transmissão intergeracional de vulnerabilidades. Foi a partir desse estudo que passei também a olhar para a constelação familiar. Embora sejam abordagens bastante diferentes, encontrei pontos de reflexão que dialogam entre si.

A epigenética mostra que experiências vividas podem alterar a forma como determinados genes são expressos, sem modificar o DNA em si. Essas alterações podem ser influenciadas por fatores como estresse, alimentação, sono, atividade física, ambiente e exposição a traumas. Algumas pesquisas sugerem que traumas intensos podem deixar marcas biológicas que atravessam gerações, como observado em estudos com descendentes de sobreviventes do Holocausto e de populações expostas à fome e às guerras. Ainda assim, essa é uma área em constante desenvolvimento, e muitos mecanismos permanecem sendo investigados.

Já a constelação familiar parte da ideia de que conflitos e sofrimentos podem estar relacionados a acontecimentos vividos por gerações anteriores. Ela utiliza conceitos como emaranhamentos familiares e, para alguns autores, campos morfogenéticos. Esses conceitos, entretanto, ainda não possuem comprovação científica.

Isso, porém, não significa que a experiência não possa ter valor. Quando conduzida por um terapeuta ético e responsável, acredito que a constelação possa ser uma importante ferramenta de autoconhecimento para algumas pessoas. Ao olhar para a própria história sob uma nova perspectiva, muitas conseguem reorganizar sentimentos, compreender padrões repetitivos e encontrar novos significados para suas experiências. Essa ressignificação pode contribuir para diminuir sentimentos de culpa, ansiedade e ressentimento.

Posso falar da minha própria experiência. Participei de algumas constelações e obtive insights importantes sobre questões pessoais. A mudança mais evidente foi abandonar o hábito de roer as unhas, que me acompanhava desde os seis anos de idade. Não posso afirmar que exista uma relação direta de causa e efeito, mas foi após esse processo de autoconhecimento, já depois dos cinquenta anos, que consegui deixar para trás um comportamento que esteve presente durante praticamente toda a minha vida.

Talvez seja justamente esse o ponto de encontro entre ciência e experiência humana. A ciência busca compreender os mecanismos pelos quais herdamos vulnerabilidades e padrões. A constelação propõe uma leitura simbólica dessas heranças. Uma não comprova a outra, mas ambas me convidam a olhar para a mesma pergunta: quanto daquilo que chamamos de “eu” realmente começou em mim?

Mas nem tudo o que herdamos pesa. Herdamos também a capacidade de amar, de trabalhar, de persistir, de criar e de cuidar. Somos feitos tanto das dores quanto das forças daqueles que vieram antes de nós. Acredito que o verdadeiro desafio seja reconhecer essa herança, preservar o que nos fortalece e transformar aquilo que já não faz sentido carregar.

Talvez o velho ditado faça ainda mais sentido do que imaginávamos. Quem sai aos seus não degenera.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Progresso

 





Quando, nos anos de 1980, alguém perguntava o que era o progresso, eu respondia imediatamente que seria o dia em que não precisaríamos nos esforçar para quase nada. Tudo seria muito fácil e intuitivo, automático e automatizado, como nos desenhos animados daquela época.

Os personagens viviam de forma quase intergaláctica. Bastava dar um comando de voz e tudo acontecia. Havia robôs para os serviços braçais, comida preparada instantaneamente, máquinas que limpavam a casa sozinhas e telefones que permitiam ver a pessoa com quem estávamos falando, de qualquer lugar do mundo.

Pois bem. Chegamos lá.

Conseguimos, com toda a tecnologia, diminuir distâncias físicas, receber informações em tempo real sobre o que acontece em qualquer lugar deste planetinha apesar de que ainda ansiamos pela prova de que existem outras civilizações fora dele (alguns ainda precisam dessa prova).

Muitos daqueles sonhos já fazem parte do nosso cotidiano neste século XXI, que caminha para o final de sua terceira década.

Mas isso é progresso?

A tecnologia conseguiu diminuir distâncias, conectar pessoas em tempo real e colocar praticamente todo o conhecimento humano ao alcance de um toque. Hoje sabemos, quase instantaneamente, o que acontece em qualquer lugar deste pequeno planeta. Nunca tivemos tanto acesso à informação.

E isso é maravilhoso.

Mas, ao mesmo tempo em que facilita a vida de muitos, a tecnologia está criando barreiras invisíveis para quem não consegue acompanhar sua velocidade.

Refiro-me aos idosos, que nasceram em um mundo analógico e agora precisam sobreviver em um ambiente onde tudo exige senha, QR Code, aplicativos, atendimento virtual e serviços online.

Como marcar uma consulta sem conseguir falar com uma pessoa?

Como acessar seu próprio dinheiro dependendo de um aplicativo que você não entende completamente?

Como resolver um problema quando o único atendimento disponível é um robô?

Nem todo idoso tem filhos por perto para ajudar. Nem todo idoso tem um familiar disponível para explicar uma atualização do celular, recuperar uma senha esquecida ou auxiliar em um cadastro obrigatório.

O problema não é o aplicativo, é o desaparecimento da alternativa.

O problema não é a modernização,  é quando ela substitui a humanidade em vez de servi-la.

Surge então uma pergunta:

Estamos construindo um mundo mais moderno ou apenas um mundo que deixou de considerar parte das pessoas?

Talvez a dor não esteja em aprender uma nova tecnologia, e sim em descobrir que, quando não conseguimos acompanhá-la, deixamos de existir para o sistema.

Se isso é progresso, ainda temos muito a evoluir, porque progresso de verdade é aquele que inclui.

É quando ninguém fica para trás.