Trabalho em um município vizinho de onde moro e, por isso, dirijo mais ou menos 50 km para ir e voltar. Já há dez anos sigo e volto só na estrada e venho ouvindo música, podcasts sobre assuntos do meu interesse, aulas dos meus cursos e por aí vai. Absorta em meus pensamentos, não nego que é um momento meu de paz e tranquilidade.
Essa semana, quando setembro começou, lembrei que comemoro o aniversário do meu pai no dia 6. Ele faria 96 anos.
E lembrei de uma história que vi na internet: assim que você morre, vira retrato na parede. Passada uma geração, esses retratos saem da parede e vão para uma caixa. Na geração seguinte, viramos lembrança dos mais velhos, até que um dia sumimos deste mundo.
Me entristeci ao pensar que, daqui a alguns anos, meu pai poderá virar apenas uma lembrança, até sumir da memória dos que ficarem.
Foquei no caminho e lembrei que, se não fosse pelo meu pai, eu não estaria dirigindo naquela estrada…
Quando fiz 18 anos, eu não queria tirar a carteira de motorista e meu pai literalmente me obrigou. Dizia que era um absurdo uma pessoa não dirigir em pleno 1984! Que eu ia tirar a carteira e não se falava mais nisso.
Na rebeldia burra do final da adolescência, eu tirei a carteira e entreguei para ele, pois o trato era esse. Mas avisei que não ia dirigir.
Na sua imensa sabedoria paterna, ele nada falou.
Nos meses seguintes, comprou um carro novo e disse para mim, como quem não queria nada:
“Chama a sua amiga e vai dar uma volta!“
Não preciso dizer que me encantei com o carro novo, com a possibilidade de não precisar mais andar de ônibus e, principalmente, com aquela liberdade de ir e vir.
Nunca mais parei de dirigir.
Passados muitos anos, com ele já doente, eu saía no meio do expediente e ia até a casa dele. E ele dizia:
"O que você veio fazer aqui agora? Não está trabalhando? Pegando estrada…"
E eu respondia que, se ele havia insistido tanto para que eu dirigisse e tivesse liberdade de ir e vir, eu estava exercendo justamente isso.
A liberdade que ele mesmo tinha me dado.
E foi pensando nisso, dirigindo naquele dia, que percebi uma coisa.
Talvez um dia os retratos saiam das paredes. Talvez, daqui a algumas gerações, alguém encontre uma fotografia dele e já não saiba exatamente quem foi aquele homem.
Mas isso não significa que ele tenha desaparecido.
Porque existem pessoas que continuam no mundo através das coisas que deixaram nos outros.
Meu pai está na mulher que aprendeu a pegar a estrada. Está na liberdade que ele fez questão que eu tivesse, mesmo antes de eu saber que precisava dela. Está em escolhas minhas, em gestos, em pensamentos, em histórias que ainda conto.
E esse é apenas um dos inúmeros exemplos de tudo o que ele fez para que eu crescesse e me tornasse quem sou.
Enquanto eu estiver aqui na fisicalidade, ele estará nas minhas lembranças.
Mas não apenas nelas.
Ele estará também em muito do que sou e em muito do que faço.
Feliz aniversário, pai. ❤️







