“Até você tornar o inconsciente consciente, ele irá dirigir a sua vida e você o chamara de destino”
Jung
Quando somos jovens, passamos boa parte da vida tentando construir nossa própria identidade. Queremos ser diferentes dos nossos pais. Curiosamente, é justamente com o passar dos anos que começamos a reconhecer neles partes importantes de quem somos. Não como uma prisão, mas como uma herança.
Foi exatamente isso que comecei a perceber nas minhas mais de cinco décadas de vida (quase seis). São nos pequenos detalhes que enxergo de onde vim. Hoje reconheço com muita clareza características dos meus pais e, de alguma forma, dos meus ancestrais.
Pequenos gestos, sorrisos, o franzir dos olhos, o jeito de andar, de falar e tantos outros detalhes despertam em mim um profundo sentimento de pertencimento. Como não me maravilhar quando me vejo cozinhando com alguns trejeitos da minha mãe? Nessa hora, sou imediatamente transportada para a infância, vendo-a preparar nossas refeições. Ou quando fico irritada e percebo exatamente o mesmo movimento dos lábios e um ranger de dentes tão característico do meu pai.
É impossível não reconhecer essa herança. Ela aparece nos gestos mais simples, mas também nas emoções, nos medos, nos receios e na forma como reagimos à vida.
Essas questões me levaram a estudar um pouco de epigenética. Hoje sabemos que ela oferece um possível mecanismo biológico para explicar parte da transmissão intergeracional de vulnerabilidades. Foi a partir desse estudo que passei também a olhar para a constelação familiar. Embora sejam abordagens bastante diferentes, encontrei pontos de reflexão que dialogam entre si.
A epigenética mostra que experiências vividas podem alterar a forma como determinados genes são expressos, sem modificar o DNA em si. Essas alterações podem ser influenciadas por fatores como estresse, alimentação, sono, atividade física, ambiente e exposição a traumas. Algumas pesquisas sugerem que traumas intensos podem deixar marcas biológicas que atravessam gerações, como observado em estudos com descendentes de sobreviventes do Holocausto e de populações expostas à fome e às guerras. Ainda assim, essa é uma área em constante desenvolvimento, e muitos mecanismos permanecem sendo investigados.
Já a constelação familiar parte da ideia de que conflitos e sofrimentos podem estar relacionados a acontecimentos vividos por gerações anteriores. Ela utiliza conceitos como emaranhamentos familiares e, para alguns autores, campos morfogenéticos. Esses conceitos, entretanto, ainda não possuem comprovação científica.
Isso, porém, não significa que a experiência não possa ter valor. Quando conduzida por um terapeuta ético e responsável, acredito que a constelação possa ser uma importante ferramenta de autoconhecimento para algumas pessoas. Ao olhar para a própria história sob uma nova perspectiva, muitas conseguem reorganizar sentimentos, compreender padrões repetitivos e encontrar novos significados para suas experiências. Essa ressignificação pode contribuir para diminuir sentimentos de culpa, ansiedade e ressentimento.
Posso falar da minha própria experiência. Participei de algumas constelações e obtive insights importantes sobre questões pessoais. A mudança mais evidente foi abandonar o hábito de roer as unhas, que me acompanhava desde os seis anos de idade. Não posso afirmar que exista uma relação direta de causa e efeito, mas foi após esse processo de autoconhecimento, já depois dos cinquenta anos, que consegui deixar para trás um comportamento que esteve presente durante praticamente toda a minha vida.
Talvez seja justamente esse o ponto de encontro entre ciência e experiência humana. A ciência busca compreender os mecanismos pelos quais herdamos vulnerabilidades e padrões. A constelação propõe uma leitura simbólica dessas heranças. Uma não comprova a outra, mas ambas me convidam a olhar para a mesma pergunta: quanto daquilo que chamamos de “eu” realmente começou em mim?
Mas nem tudo o que herdamos pesa. Herdamos também a capacidade de amar, de trabalhar, de persistir, de criar e de cuidar. Somos feitos tanto das dores quanto das forças daqueles que vieram antes de nós. Acredito que o verdadeiro desafio seja reconhecer essa herança, preservar o que nos fortalece e transformar aquilo que já não faz sentido carregar.
Talvez o velho ditado faça ainda mais sentido do que imaginávamos. Quem sai aos seus não degenera.








