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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Meu pai!

 



Trabalho em um município vizinho de onde moro e, por isso, dirijo mais ou menos 50 km para ir e voltar. Já há dez anos sigo e volto só na estrada e venho ouvindo música, podcasts sobre assuntos do meu interesse, aulas dos meus cursos e por aí vai. Absorta em meus pensamentos, não nego que é um momento meu de paz e tranquilidade.

Essa semana, quando setembro começou, lembrei que comemoro o aniversário do meu pai no dia 6. Ele faria 96 anos.

E lembrei de uma história que vi na internet: assim que você morre, vira retrato na parede. Passada uma geração, esses retratos saem da parede e vão para uma caixa. Na geração seguinte, viramos lembrança dos mais velhos, até que um dia sumimos  deste mundo.

Me entristeci ao pensar que, daqui a alguns anos, meu pai poderá virar apenas uma lembrança, até sumir da memória dos que ficarem.

Foquei no caminho e lembrei que, se não fosse pelo meu pai, eu não estaria dirigindo naquela estrada…

Quando fiz 18 anos, eu não queria tirar a carteira de motorista e meu pai literalmente me obrigou. Dizia que era um absurdo uma pessoa não dirigir em pleno 1984! Que eu ia tirar a carteira e não se falava mais nisso.

Na rebeldia burra do final da adolescência, eu tirei a carteira e entreguei para ele, pois o trato era esse. Mas avisei que não ia dirigir.

Na sua imensa sabedoria paterna, ele nada falou.

Nos meses seguintes, comprou um carro novo e disse para mim, como quem não queria nada:

“Chama  a sua amiga e vai dar uma volta!“

Não preciso dizer que me encantei com o carro novo, com a possibilidade de não precisar mais andar de ônibus e, principalmente, com aquela liberdade de ir e vir.

Nunca mais parei de dirigir.

Passados muitos anos, com ele já doente, eu saía no meio do expediente e ia até a casa dele. E ele dizia:

"O que você veio fazer aqui agora? Não está trabalhando? Pegando estrada…"

E eu respondia que, se ele havia insistido tanto para que eu dirigisse e tivesse liberdade de ir e vir, eu estava exercendo justamente isso.

A liberdade que ele mesmo tinha me dado.

E foi pensando nisso, dirigindo naquele dia, que percebi uma coisa.

Talvez um dia os retratos saiam das paredes. Talvez, daqui a algumas gerações, alguém encontre uma fotografia dele e já não saiba exatamente quem foi aquele homem.

Mas isso não significa que ele tenha desaparecido.

Porque existem pessoas que continuam no mundo através das coisas que deixaram nos outros.

Meu pai está na mulher que aprendeu a pegar a estrada. Está na liberdade que ele fez questão que eu tivesse, mesmo antes de eu saber que precisava dela. Está em escolhas minhas, em gestos, em pensamentos, em histórias que ainda conto.

E esse é apenas um dos inúmeros exemplos de tudo o que ele fez para que eu crescesse e me tornasse quem sou.

Enquanto eu estiver aqui na fisicalidade, ele estará nas minhas lembranças.

Mas não apenas nelas.

Ele estará também em muito do que sou e em muito do que faço.

Feliz aniversário, pai. ❤️


terça-feira, 30 de junho de 2026

Quem sai aos seus não degenera

 



“Até você tornar o inconsciente consciente, ele irá dirigir a sua vida e você o chamara de destino” 

Jung


Quando somos jovens, passamos boa parte do nosso tempo tentando construir nossa própria identidade. Queremos ser diferentes dos nossos pais. Curiosamente, é justamente com o passar dos anos que começamos a reconhecer neles partes importantes de quem somos. Não como uma prisão, mas como uma herança.

Foi exatamente isso que comecei a perceber nas minhas mais de cinco décadas de vida (quase seis). São nos pequenos detalhes que enxergo de onde vim. Hoje reconheço com muita clareza características dos meus pais e, de alguma forma, dos meus ancestrais.

Pequenos gestos, sorrisos, o franzir dos olhos, o jeito de andar, de falar e tantos outros detalhes despertam em mim um profundo sentimento de pertencimento. Como não me maravilhar quando me vejo cozinhando com alguns trejeitos da minha mãe? Nessa hora, sou imediatamente transportada para a infância, vendo-a preparar nossas refeições. Ou quando fico irritada e percebo exatamente o mesmo movimento dos lábios e um ranger de dentes tão característico do meu pai.

É impossível não reconhecer essa herança. Ela aparece nos gestos mais simples, mas também nas emoções, nos medos, nos receios e na forma como reagimos à vida.

Essas questões me levaram a estudar um pouco de epigenética. Hoje sabemos que ela oferece um possível mecanismo biológico para explicar parte da transmissão intergeracional de vulnerabilidades. Foi a partir desse estudo que passei também a olhar para a constelação familiar. Embora sejam abordagens bastante diferentes, encontrei pontos de reflexão que dialogam entre si.

A epigenética mostra que experiências vividas podem alterar a forma como determinados genes são expressos, sem modificar o DNA em si. Essas alterações podem ser influenciadas por fatores como estresse, alimentação, sono, atividade física, ambiente e exposição a traumas. Algumas pesquisas sugerem que traumas intensos podem deixar marcas biológicas que atravessam gerações, como observado em estudos com descendentes de sobreviventes do Holocausto e de populações expostas à fome e às guerras. Ainda assim, essa é uma área em constante desenvolvimento, e muitos mecanismos permanecem sendo investigados.

Já a constelação familiar parte da ideia de que conflitos e sofrimentos podem estar relacionados a acontecimentos vividos por gerações anteriores. Ela utiliza conceitos como emaranhamentos familiares e, para alguns autores, campos morfogenéticos. Esses conceitos, entretanto, ainda não possuem comprovação científica.

Isso, porém, não significa que a experiência não possa ter valor. Quando conduzida por um terapeuta ético e responsável, acredito que a constelação possa ser uma importante ferramenta de autoconhecimento para algumas pessoas. Ao olhar para a própria história sob uma nova perspectiva, muitas conseguem reorganizar sentimentos, compreender padrões repetitivos e encontrar novos significados para suas experiências. Essa ressignificação pode contribuir para diminuir sentimentos de culpa, ansiedade e ressentimento.

Posso falar da minha própria experiência. Participei de algumas constelações e obtive insights importantes sobre questões pessoais. A mudança mais evidente foi abandonar o hábito de roer as unhas, que me acompanhava desde os seis anos de idade. Não posso afirmar que exista uma relação direta de causa e efeito, mas foi após esse processo de autoconhecimento, já depois dos cinquenta anos, que consegui deixar para trás um comportamento que esteve presente durante praticamente toda a minha vida.

Talvez seja justamente esse o ponto de encontro entre ciência e experiência humana. A ciência busca compreender os mecanismos pelos quais herdamos vulnerabilidades e padrões. A constelação propõe uma leitura simbólica dessas heranças. Uma não comprova a outra, mas ambas me convidam a olhar para a mesma pergunta: quanto daquilo que chamamos de “eu” realmente começou em mim?

Mas nem tudo o que herdamos pesa. Herdamos também a capacidade de amar, de trabalhar, de persistir, de criar e de cuidar. Somos feitos tanto das dores quanto das forças daqueles que vieram antes de nós. Acredito que o verdadeiro desafio seja reconhecer essa herança, preservar o que nos fortalece e transformar aquilo que já não faz sentido carregar.

Talvez o velho ditado faça ainda mais sentido do que imaginávamos. Quem sai aos seus não degenera.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Progresso

 





Quando, nos anos de 1980, alguém perguntava o que era o progresso, eu respondia imediatamente que seria o dia em que não precisaríamos nos esforçar para quase nada. Tudo seria muito fácil e intuitivo, automático e automatizado, como nos desenhos animados daquela época.

Os personagens viviam de forma quase intergaláctica. Bastava dar um comando de voz e tudo acontecia. Havia robôs para os serviços braçais, comida preparada instantaneamente, máquinas que limpavam a casa sozinhas e telefones que permitiam ver a pessoa com quem estávamos falando, de qualquer lugar do mundo.

Pois bem. Chegamos lá.

Conseguimos, com toda a tecnologia, diminuir distâncias físicas, receber informações em tempo real sobre o que acontece em qualquer lugar deste planetinha apesar de que ainda ansiamos pela prova de que existem outras civilizações fora dele (alguns ainda precisam dessa prova).

Muitos daqueles sonhos já fazem parte do nosso cotidiano neste século XXI, que caminha para o final de sua terceira década.

Mas isso é progresso?

A tecnologia conseguiu diminuir distâncias, conectar pessoas em tempo real e colocar praticamente todo o conhecimento humano ao alcance de um toque. Hoje sabemos, quase instantaneamente, o que acontece em qualquer lugar deste pequeno planeta. Nunca tivemos tanto acesso à informação.

E isso é maravilhoso.

Mas, ao mesmo tempo em que facilita a vida de muitos, a tecnologia está criando barreiras invisíveis para quem não consegue acompanhar sua velocidade.

Refiro-me aos idosos, que nasceram em um mundo analógico e agora precisam sobreviver em um ambiente onde tudo exige senha, QR Code, aplicativos, atendimento virtual e serviços online.

Como marcar uma consulta sem conseguir falar com uma pessoa?

Como acessar seu próprio dinheiro dependendo de um aplicativo que você não entende completamente?

Como resolver um problema quando o único atendimento disponível é um robô?

Nem todo idoso tem filhos por perto para ajudar. Nem todo idoso tem um familiar disponível para explicar uma atualização do celular, recuperar uma senha esquecida ou auxiliar em um cadastro obrigatório.

O problema não é o aplicativo, é o desaparecimento da alternativa.

O problema não é a modernização,  é quando ela substitui a humanidade em vez de servi-la.

Surge então uma pergunta:

Estamos construindo um mundo mais moderno ou apenas um mundo que deixou de considerar parte das pessoas?

Talvez a dor não esteja em aprender uma nova tecnologia, e sim em descobrir que, quando não conseguimos acompanhá-la, deixamos de existir para o sistema.

Se isso é progresso, ainda temos muito a evoluir, porque progresso de verdade é aquele que inclui.

É quando ninguém fica para trás.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A vida melhorou muito.

    



Desde muito jovem tomo no café da manhã uma boa xícara de café puro.  Tomando meu café hoje cedo, lembrei que minha mãe fazia logo cedo o café coado e colocava a minha xícara em uma pequena garrafa térmica, para que não esfriasse, pois eu não gostava de café requentado... não havia máquinas de café expresso caseiras naquela época, final dos anos de 1980, mas eu já sonhava com elas e quando me casei comprei uma daquelas primeiras versões domésticas. Não era uma maravilha, mas superava o café da garrafa térmica.

Sempre ansiei pelo progresso e pela tecnologia, pensava em tudo que poderia ser facilitado e no tempo economizado. Eu escrevia a mão, ou na máquina de escrever, e sonhava em ter um computador. A internet nem existia ainda, o meu sonho era somente ter um editor de texto. Na vanguarda de muita gente, comprei meu primeiro computador quando estava grávida, e como tive uma gravidez difícil, consegui produzir na época alguns relatórios e planilhas em casa e mandar para meu chefe da época em 1994. Em seguida veio a internet, discada, mas o mundo começava a ganhar uma expansão inédita.

Tínhamos em casa uma agenda com todos os endereços e números de telefone da família, amigos e conhecidos. Ficava uma bagunça, páginas rabiscadas e folhas caindo, assim que inventaram a agenda eletrônica, comprei felicíssima uma pequena e passei um bom tempo colocando os registros nela. Ainda desabituada com a fragilidade dos equipamentos eletrônicos, a minha agenda caiu no chão e imediatamente quebrou... e lá se foram todos os registros.

Passei a infância acreditando que o mundo ia acabar no ano 2000, e passado o medo do bug do milênio, a velocidade com que fomos atropelados pela evolução neste nosso século, fez parecer tudo muito agradável e eu, maravilhada com as comodidades que foram chegando facilmente para minha vida.

As grossas listas telefônicas, o telefone fixo e as demoradas conversas, os mapas que deixávamos no porta luvas do carro, o orelhão... tudo foi deixando de fazer parte da minha vida aos poucos, e para sempre. Tudo cada vez mais inteligente, funcional, prático e rápido. A vida melhorou muito! Não tenho certeza se ficou mais próxima.

De novo lembrando do meu café hoje cedo, assim que coloquei a cápsula na máquina, satisfeita com o sabor forte e quente do meu café, pensei se teria tempo para tudo o que eu havia programado para hoje, se ia conseguir essa semana tomar um café com uma amiga, já que nossos telefones fazem tudo, menos telefonar...


quinta-feira, 26 de março de 2026

EXPLORE SEU MUNDO!

 




Há um momento em que precisamos nos reconectar com quem somos de verdade. 

Havia aquela visão de criança de imensidão e dúvida, onde nosso universo se resumia ao que nossos pai e mãe nos mostravam, com a visão e valores deles. E isso determinava se eu era feliz ou não, simples assim. Em seguida a adolescência, com todas as informações que chegavam de fora, normalmente conflitantes com o que tínhamos vivido até então, ampliando nosso horizonte,  para ao nos tornarmos jovens  adultos termos nítido na nossa mente,  agora formada,  os nossos gostos, pensamentos e ambições.

Eu acredito que a juventude é a fase mais dolorosa de uma existência, e como compensação é a nossa fase de maior força, prazeres, certezas, paixões, cores fortes e sentimentos extremos. Nessa fase somos quem somos verdadeiramente, e a vida vai passando e agindo como um lapidário; cortando, modelando e polindo nossa mente.

Muitas vezes, essa lapidação vai deixando parte de quem somos para trás, e a maturidade vai sedimentando o que se passou. Há aqueles que ignoram seus sentimentos e seguem a vida sem muitos questionamentos, sonolentos diante dos desafios da vida.

Por muito tempo pensei dessa forma e segui o caminho sem questionar, confiando que o destino é quem comanda, até que aquela estrada se torna não muito agradável, com muitos obstáculos que você sofre ao aceitar transpor, e questiona: “precisa ser assim?”.

Revendo imagens de minha juventude, muito além da aparência jovem, lembrei dos meus objetivos e sonhos, e como  eu era feliz, risonha (ainda sou) e naturalmente segura.

Havia em mim uma sede de saber imensa, que me fazia afundar em livros e mais livros, curiosa de entender a mente humana, lugares do planeta e hábitos diferentes dos que eu conhecia até então. Mas vem a roda da vida e essa curiosidade vai ficando de lado, a maturidade e seu lado racional sepultando as suas ambições genuínas do saber. Entra-se no sistema.

Alguns assim vivem até ir embora da fisicalidade, serenos e resilientes quanto ao destino por eles mesmo escolhido, e não há problema nenhum em assim querer, cada qual com sua escolha. Outros, em situações desafiadoras, despertam, e passam a questionar o porquê e buscam entender os caminhos percorridos. Passa-se para o autoconhecimento, a principal ferramenta para entender quem se é, o que te trouxe até o momento de vida em que se está, e te move para aquilo que se quer, com consciência.

 “Conhece-se a ti mesmo e conhecerás o mundo e os Deuses” *

Cheguei então um tempo atrás nesta encruzilhada da vida, onde  parei para entender quem eu era e se estava fazendo jus a todas as inquietações da juventude. O que vi não me agradou, e creio que ninguém se agrade, uns mais outros menos, do que se tornou. Nas infinitas possibilidades possíveis, escolhi as que julguei melhor, mas havia algumas mais prósperas certamente, mas também outras bastante piores com certeza. E desde então estou novamente nas redes das leituras e estudos, no mesmo ímpeto de aprender e entender, agora mais desperta e sem viseiras, com o intuito de ser meu próprio lapidário, modelando e polindo minha mente eu mesma, até que ela seja realmente uma pedra preciosa no caminho da evolução, sob o meu próprio ponto de vista e não de outros.

Nesta hora, ao rever minhas imagens de juventude, a nostalgia sempre me pega, mas há uma felicidade serena de estar fazendo jus àquela que ansiava tanto, parou por um tempo, mas agora conscientemente, vivendo com as dores e delícias de ser quem se é.


* frequentemente atribuída a Sócrates, frase inscrita no Oráculo de Delfos, que sugere que o autoconhecimento é a chave para compreensão divina e cósmica