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terça-feira, 2 de junho de 2026

Progresso

 





Quando, nos anos de 1980, alguém perguntava o que era o progresso, eu respondia imediatamente que seria o dia em que não precisaríamos nos esforçar para quase nada. Tudo seria muito fácil e intuitivo, automático e automatizado, como nos desenhos animados daquela época.

Os personagens viviam de forma quase intergaláctica. Bastava dar um comando de voz e tudo acontecia. Havia robôs para os serviços braçais, comida preparada instantaneamente, máquinas que limpavam a casa sozinhas e telefones que permitiam ver a pessoa com quem estávamos falando, de qualquer lugar do mundo.

Pois bem. Chegamos lá.

Conseguimos, com toda a tecnologia, diminuir distâncias físicas, receber informações em tempo real sobre o que acontece em qualquer lugar deste planetinha apesar de que ainda ansiamos pela prova de que existem outras civilizações fora dele (alguns ainda precisam dessa prova).

Muitos daqueles sonhos já fazem parte do nosso cotidiano neste século XXI, que caminha para o final de sua terceira década.

Mas isso é progresso?

A tecnologia conseguiu diminuir distâncias, conectar pessoas em tempo real e colocar praticamente todo o conhecimento humano ao alcance de um toque. Hoje sabemos, quase instantaneamente, o que acontece em qualquer lugar deste pequeno planeta. Nunca tivemos tanto acesso à informação.

E isso é maravilhoso.

Mas, ao mesmo tempo em que facilita a vida de muitos, a tecnologia está criando barreiras invisíveis para quem não consegue acompanhar sua velocidade.

Refiro-me aos idosos, que nasceram em um mundo analógico e agora precisam sobreviver em um ambiente onde tudo exige senha, QR Code, aplicativos, atendimento virtual e serviços online.

Como marcar uma consulta sem conseguir falar com uma pessoa?

Como acessar seu próprio dinheiro dependendo de um aplicativo que você não entende completamente?

Como resolver um problema quando o único atendimento disponível é um robô?

Nem todo idoso tem filhos por perto para ajudar. Nem todo idoso tem um familiar disponível para explicar uma atualização do celular, recuperar uma senha esquecida ou auxiliar em um cadastro obrigatório.

O problema não é o aplicativo, é o desaparecimento da alternativa.

O problema não é a modernização,  é quando ela substitui a humanidade em vez de servi-la.

Surge então uma pergunta:

Estamos construindo um mundo mais moderno ou apenas um mundo que deixou de considerar parte das pessoas?

Talvez a dor não esteja em aprender uma nova tecnologia, e sim em descobrir que, quando não conseguimos acompanhá-la, deixamos de existir para o sistema.

Se isso é progresso, ainda temos muito a evoluir, porque progresso de verdade é aquele que inclui.

É quando ninguém fica para trás.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A vida melhorou muito.

    



Desde muito jovem tomo no café da manhã uma boa xícara de café puro.  Tomando meu café hoje cedo, lembrei que minha mãe fazia logo cedo o café coado e colocava a minha xícara em uma pequena garrafa térmica, para que não esfriasse, pois eu não gostava de café requentado... não havia máquinas de café expresso caseiras naquela época, final dos anos de 1980, mas eu já sonhava com elas e quando me casei comprei uma daquelas primeiras versões domésticas. Não era uma maravilha, mas superava o café da garrafa térmica.

Sempre ansiei pelo progresso e pela tecnologia, pensava em tudo que poderia ser facilitado e no tempo economizado. Eu escrevia a mão, ou na máquina de escrever, e sonhava em ter um computador. A internet nem existia ainda, o meu sonho era somente ter um editor de texto. Na vanguarda de muita gente, comprei meu primeiro computador quando estava grávida, e como tive uma gravidez difícil, consegui produzir na época alguns relatórios e planilhas em casa e mandar para meu chefe da época em 1994. Em seguida veio a internet, discada, mas o mundo começava a ganhar uma expansão inédita.

Tínhamos em casa uma agenda com todos os endereços e números de telefone da família, amigos e conhecidos. Ficava uma bagunça, páginas rabiscadas e folhas caindo, assim que inventaram a agenda eletrônica, comprei felicíssima uma pequena e passei um bom tempo colocando os registros nela. Ainda desabituada com a fragilidade dos equipamentos eletrônicos, a minha agenda caiu no chão e imediatamente quebrou... e lá se foram todos os registros.

Passei a infância acreditando que o mundo ia acabar no ano 2000, e passado o medo do bug do milênio, a velocidade com que fomos atropelados pela evolução neste nosso século, fez parecer tudo muito agradável e eu, maravilhada com as comodidades que foram chegando facilmente para minha vida.

As grossas listas telefônicas, o telefone fixo e as demoradas conversas, os mapas que deixávamos no porta luvas do carro, o orelhão... tudo foi deixando de fazer parte da minha vida aos poucos, e para sempre. Tudo cada vez mais inteligente, funcional, prático e rápido. A vida melhorou muito! Não tenho certeza se ficou mais próxima.

De novo lembrando do meu café hoje cedo, assim que coloquei a cápsula na máquina, satisfeita com o sabor forte e quente do meu café, pensei se teria tempo para tudo o que eu havia programado para hoje, se ia conseguir essa semana tomar um café com uma amiga, já que nossos telefones fazem tudo, menos telefonar...


quinta-feira, 26 de março de 2026

EXPLORE SEU MUNDO!

 




Há um momento em que precisamos nos reconectar com quem somos de verdade. 

Havia aquela visão de criança de imensidão e dúvida, onde nosso universo se resumia ao que nossos pai e mãe nos mostravam, com a visão e valores deles. E isso determinava se eu era feliz ou não, simples assim. Em seguida a adolescência, com todas as informações que chegavam de fora, normalmente conflitantes com o que tínhamos vivido até então, ampliando nosso horizonte,  para ao nos tornarmos jovens  adultos termos nítido na nossa mente,  agora formada,  os nossos gostos, pensamentos e ambições.

Eu acredito que a juventude é a fase mais dolorosa de uma existência, e como compensação é a nossa fase de maior força, prazeres, certezas, paixões, cores fortes e sentimentos extremos. Nessa fase somos quem somos verdadeiramente, e a vida vai passando e agindo como um lapidário; cortando, modelando e polindo nossa mente.

Muitas vezes, essa lapidação vai deixando parte de quem somos para trás, e a maturidade vai sedimentando o que se passou. Há aqueles que ignoram seus sentimentos e seguem a vida sem muitos questionamentos, sonolentos diante dos desafios da vida.

Por muito tempo pensei dessa forma e segui o caminho sem questionar, confiando que o destino é quem comanda, até que aquela estrada se torna não muito agradável, com muitos obstáculos que você sofre ao aceitar transpor, e questiona: “precisa ser assim?”.

Revendo imagens de minha juventude, muito além da aparência jovem, lembrei dos meus objetivos e sonhos, e como  eu era feliz, risonha (ainda sou) e naturalmente segura.

Havia em mim uma sede de saber imensa, que me fazia afundar em livros e mais livros, curiosa de entender a mente humana, lugares do planeta e hábitos diferentes dos que eu conhecia até então. Mas vem a roda da vida e essa curiosidade vai ficando de lado, a maturidade e seu lado racional sepultando as suas ambições genuínas do saber. Entra-se no sistema.

Alguns assim vivem até ir embora da fisicalidade, serenos e resilientes quanto ao destino por eles mesmo escolhido, e não há problema nenhum em assim querer, cada qual com sua escolha. Outros, em situações desafiadoras, despertam, e passam a questionar o porquê e buscam entender os caminhos percorridos. Passa-se para o autoconhecimento, a principal ferramenta para entender quem se é, o que te trouxe até o momento de vida em que se está, e te move para aquilo que se quer, com consciência.

 “Conhece-se a ti mesmo e conhecerás o mundo e os Deuses” *

Cheguei então um tempo atrás nesta encruzilhada da vida, onde  parei para entender quem eu era e se estava fazendo jus a todas as inquietações da juventude. O que vi não me agradou, e creio que ninguém se agrade, uns mais outros menos, do que se tornou. Nas infinitas possibilidades possíveis, escolhi as que julguei melhor, mas havia algumas mais prósperas certamente, mas também outras bastante piores com certeza. E desde então estou novamente nas redes das leituras e estudos, no mesmo ímpeto de aprender e entender, agora mais desperta e sem viseiras, com o intuito de ser meu próprio lapidário, modelando e polindo minha mente eu mesma, até que ela seja realmente uma pedra preciosa no caminho da evolução, sob o meu próprio ponto de vista e não de outros.

Nesta hora, ao rever minhas imagens de juventude, a nostalgia sempre me pega, mas há uma felicidade serena de estar fazendo jus àquela que ansiava tanto, parou por um tempo, mas agora conscientemente, vivendo com as dores e delícias de ser quem se é.


* frequentemente atribuída a Sócrates, frase inscrita no Oráculo de Delfos, que sugere que o autoconhecimento é a chave para compreensão divina e cósmica